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Distúrbios de linguagem nas crianças são muito mais corriqueiros do que se imagina

Amaieio. Figulinha. Bebelo. Muita gente acha graça quando ouve uma criança falando assim. Na maioria das vezes, pronunciar as palavras de maneira errônea, sem um "L" aqui ou um "R" acolá, faz parte do desenvolvimento normal de meninos e meninas. Mas, se trocas e omissões de sons permanecem depois dos 3 anos, isso pode se tornar um problema no futuro ou até mesmo indicar uma doença mais grave.

O pior é que grande parte dos pediatras, especialistas a quem recorrem pais e mães nos primeiros anos de vida dos filhos, muitas vezes não repara a tempo naqueles sinais capazes de denunciar alterações na fala. É o que constatou uma pesquisa realizada na Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB-USP), no interior paulista. O estudo ouviu 79 pediatras com mais de um ano de experiência clínica nos estados de São Paulo e Minas Gerais. "Várias famílias atendidas por nós suspeitavam que a criança tinha alguma disfunção, mas o pediatra não deu atenção à queixa", explica a fonoaudióloga Luciana Maximino, do Departamento de Fonoaudiologia da FOB-USP e uma das autoras do trabalho.

Entre os riscos da demora em identificar ruídos na comunicação infantil está, além do óbvio atraso para encontrar uma solução, a possibilidade de passar despercebido um caso de surdez ou outros transtornos globais, como autismo. "Não existe marcador claro para dizer se a criança se encaixa ou não em um desses casos. Tudo é sintoma", diz Luciana. Assim, quanto mais precoce o diagnóstico, melhor. "A alfabetização vai ser mais fácil, a adaptação com aparelhos auditivos pode ser melhor e a quantidade de sessões de terapia, menor", exemplifica a fonoaudióloga.

Em defesa de seus colegas pediatras, Ana Maria Escobar, do Instituto da Criança de São Paulo, diz que o tempo de uma consulta é curto demais para flagrar problemas de fala. "Um atendimento pediátrico é diferente de um especializado", afirma. "Temos que avaliar o coração, o abdômen, o fígado e o baço, checar o ouvido e a garganta, verificar o tônus muscular e possíveis transtornos neurológicos", enumera Ana. Além disso, na presença do médico, muitos garotos e garotas ficam intimidados. E mudos.

Por isso é importante que os pais levem dúvidas e alertas para o consultório, sem esperar, em silêncio, que o próprio especialista note algo diferente na hora agá do exame. E, claro, para que apresentem informações pertinentes, devem permanecer atentos. "A mãe e o pai precisam observar as habilidades do filho para imitar movimentos e sons da fala, mostrar objetos e compreender ordens simples, como bater palma", indica a fonoaudióloga Jacy Pericinoto, professora da Universidade Federal de São Paulo. Um erro é fatal: comunicar-se de uma maneira infantilizada com a garotada, o que só atrapalha. Afinal, os pequenos repetem o que ouvem. É a fala do adulto, mais evoluída, que permite que a aquisição da linguagem progrida. "Conversar com a criança, e não por ela, é a primeira atitude que os pais devem tomar", ensina Fernanda Dreux Fernandes, presidente da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia.

É importante, ainda, avaliar o padrão de normalidade da criança, comparando-a com outras da mesma idade e sabendo o que esperar em cada faixa etária. "Claro que o desenvolvimento tem vários ritmos. E os limites são flexíveis", pondera Fernanda. "Os pais, ao perceberem que o filho começa a gaguejar, por exemplo, devem reparar se com o tempo ele melhora, piora ou fica estável", recomenda Denise Madureira, fonoaudióloga da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. "Se em três meses houver regressão, tudo bem. No entanto, se o distúrbio persistir ou o pequeno ficar envergonhado, é aconselhável levá-lo depressa ao especialista."

Quando há um problema, o tratamento geralmente consiste em terapia fonoaudiológica, que se vale de brinquedos para facilitar o contato com o especialista da área, e aconselhamento familiar, afinal, em casa, todos devem colaborar. A duração varia conforme o caso. E, enquanto o tratamento dura, correções e broncas nunca são bem-vindas. Se a criança gagueja e é repreendida, as palavras vão sair cada vez mais aos tropeços ou, por medo de errar, o silêncio infantil será a norma. Repetir o certo basta. Cuidar dos ouvidos, e de possíveis infecções, também está relacionado ao desenvolvimento adequado da linguagem. Afinal, para falar, a gente precisa ouvir bem.

Camila Carvas – Saúde!

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